O Brasil possui mais de duas mil associações comerciais, empresariais e industriais espalhadas por todos os 26 estados e no Distrito Federal. Essa “Rede das Redes” pode colaborar com o desenvolvimento dos pequenos e médios negócios locais, principalmente com as oportunidades de negócios abertas pela passagem oficial da Tocha Olímpica por mais de 300 cidades brasileiras, antes da abertura dos Jogos Rio 2016, no dia cinco de agosto.

A união de esforços entre os que representam a atividade privada, o setor produtivo, e os responsáveis pelas administrações municipais, os prefeitos, é o que o presidente da ACRio, Paulo Protasio, chama de “transformação da realidade socioeconômica do país de baixo para cima”. Esse foi o principal tema discutido durante a Mesa Redonda “Chama Empreendedora e o Desenvolvimento Local / Global”, realizada no dia 24 de março, na ACRio, durante o segundo dia de atividades da 69ª Reunião Geral da FNP.

Para Protasio, os Jogos Rio 2016 não vão passar em branco, no sentido de gerarem oportunidades de negócios antes, durante e depois das competições. “Eles vão realmente acontecer num processo de mobilização totalmente diferenciado do que foi a Copa do Mundo de 2014”, assegurou o dirigente.

Ele destacou ainda que o Brasil deve aproveitar o momento em que é o centro das atenções mundiais, assim como fez a China, durante os Jogos Olímpicos de 2008. “Aquele evento fez a China ser reconhecida pelo mundo na sua forma, no seu aspecto cultural, nas suas grandes cidades. O brasileiro, na sua grande maioria, sente que a situação atual do país é grave. E como vamos corrigir isso? Durante o processo olímpico”, sentenciou Protasio.

A pior crise política desde a retomada da democracia causa reflexos devastadores na economia brasileira. Com o aumento das taxas de juros e a diminuição de renda dos consumidores, as vendas do comércio varejista despencaram em 2015 e fecharam o ano em queda de 4,3% – a maior da série histórica do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), iniciada em 2001.

Sebrae no Pódio

Pequenos Negócios e Oportunidades

Na sequência do evento, o coordenador do programa Sebrae no Pódio, Francisco Marins, explicou que o projeto desenvolvido pelo Sebrae no Rio de Janeiro, em parceria com o Comitê Olímpico Rio 2016, mobilizou e capacitou micro e pequenas empresas para serem fornecedoras de produtos e serviços nos Jogos Olímpicos e Paralímpicos Rio 2016. O modelo, de acordo com Marins, deve ser repetido nos Jogos Olímpicos de Inverno de 2018, na China, e nos Jogos Olímpicos e Paralímpicos de Tóquio, em 2020.

“Esse projeto nasceu para que as micro e pequenas empresas brasileiras possam atender as demandas de produtos e serviços dos Jogos Olímpicos e Paralímpicos Rio 2016, com vistas ainda aos Jogos de 2018, na China, e 2020, no Japão. É um projeto inédito no mundo porque garante a inclusão da micro e pequena empresa no processo de fornecimento da Olimpíada”.

O presidente da ACRio, Paulo Protasio, e o coordenador do Sebrae no Pódio, Francisco Marins

O presidente da ACRio, Paulo Protasio, e o coordenador do Sebrae no Pódio, Francisco Marins

A principal demanda vem de setores responsáveis por construções temporárias, gráficas, barcos de apoio para algumas provas aquáticas, alimentação, lavanderia, informática, móveis, confecção (uniformes), entre outros. Dos mais de R$ 3 bilhões que foram orçados para investir na compra de materiais e serviços dos dois eventos, pelo menos R$ 300 milhões serão destinados diretamente às micro e pequenas empresas, com a possibilidade de um aumento, caso a procura seja grande. Marins destacou ainda que 11 mil e 700 empresas já foram cadastradas no Portal de Suprimentos Rio 2016. 75 % são micro ou pequenas. Por meio do projeto, 690 contratos já foram assinados. As empresas interessadas ainda podem fazer o seu cadastro pelo site www.portaldesuprimentos.rio2016.com.

“Para chegarmos a esses números, falamos com mais de 30 mil empresas, desde julho de 2013, quando assinamos o acordo com o Comitê Organizador. Essa metodologia não pode parar. Daí a importância dessa visão empreendedora que teve o presidente Paulo Protasio”, afirmou Marins, referindo-se a ideia da Chama Empreendedora.

Um dos legados do programa Sebrae no Pódio, de acordo com Marins, é a entrega da Classificação internacional pelo Sistema UNSPSC – The United Nations Standard Products and Services Code – para todas as empresas selecionadas como potenciais fornecedores dos Jogos. Assim como a International Organization for Standardization (ISO) sugere a adoção de normas de boas práticas de gestão da qualidade nas empresas, a Organização das Nações Unidas (ONU) recomenda a adoção do código UNSPSC para viabilizar transações comerciais de materiais, produtos e serviços que utilizam um padrão internacional. Marins lembra que esta iniciativa também viabilizará e facilitará a realização de outros negócios internacionais.

“Além das certificações, as empresas do projeto ganham um programa de qualificação com diagnóstico de gestão para saber como está a área de finanças, se está sabendo negociar bem, como está a administração de pessoal. E, para quem ainda não entrou, ainda há tempo de qualificação porque a ideia nossa é dar prosseguimento ao projeto”, comemorou.

Plano Nacional da Cultura Exportadora

O analista de comércio exterior, Carlos Luís Tavares, representando o Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (MDIC), fechou o evento com a palestra “Procedimentos para exportação – MDIC/Apex”. Segundo Tavares, atualmente, 22 mil empresas brasileiras exportam R$ 240 bilhões. Dessa base exportadora, seis mil são grandes empresas e 16 mil são pequenas e médias. Apesar de serem a maioria, apenas 10% desse volume (RS 24 bilhões) é fruto da ação dos pequenos e médios negócios.

“O Plano Nacional da Cultura Exportadora (PNCE) visa exatamente estimular a competitividade e promover a cultura exportadora, principalmente nas micro e pequenas empresas, qualificando e ampliando os mercados para as indústrias iniciantes em comércio exterior”.

De acordo com Tavares, a partir dos Comitês Estaduais do PNCE, as empresas terão acesso a diagnóstico de produtos e serviços, consultoria de inteligência comercial (que avalia em quais mercados aquele produto ou serviço tem potencial de venda), rodadas de negócios com compradores estrangeiros e participação em missões comerciais.

O PNCE é desenvolvido em cinco etapas: sensibilização, inteligência comercial, adequação de produtos e processos, promoção comercial e comercialização. Até o final do ano, empresas de todos os estados brasileiros serão beneficiadas com as ações do Plano Nacional da Cultura Exportadora.

“Nosso PNCE tem como base as micro, pequenas e médias empresas. Se o empresário interessado em participar não conhecer nada do processo exportador, ele entra no processo inicial e ali nós temos várias ações para sensibilizá-lo”.

Produtos licenciados podem movimentar R$ 1 bi

Em todo o país, instituições ligadas ao desenvolvimento nacional tentam mitigar os efeitos dessa tempestade. Nesse sentido, os Jogos Olímpicos Rio 2016 se revelam como uma grande oportunidade de negócios para as empresas nacionais. Somente o setor de Licenciamento e Varejo do Comitê Olímpico pretende movimentar, até o final dos Jogos, em setembro, 1 bilhão de reais no varejo brasileiro com a venda dos oito mil produtos oficiais, entre mascotes de pelúcia, joias, brinquedos, roupas, mochilas, cadernos e diversos outros itens.

Protasio sugeriu que as empresas credenciadas para vender produtos com o selo Rio 2016 realizem feiras nas Associações Comerciais presentes nas 26 capitais brasileiras. “Queremos ir a todas as capitais e fazer a exposição dos produtos. A retomada do crescimento nacional se dará de baixo para cima, através das entidades de classe, passando pelos municípios, pelos estados e chegando ao governo federal. Só com a participação das instituições e mobilização da sociedade poderemos reverter esse quadro”, disse.

Comitê Rio 2016 Sylmara Montini

A diretora de Licenciamento e Varejo do Comitê Rio 2016, Sylmara Montini, acredita que a ACRio pode colaborar na divulgação e venda dos produtos licenciados

A diretora de Licenciamento e Varejo do Comitê Rio 2016, Sylmara Multini, destaca que os 8 mil artigos temáticos estarão disponíveis, em 150 lojas oficiais, inclusive eletrônica, e 40 mil pontos de venda, 80% deles no Rio. Sylmara avalia que uma possível exposição dos produtos em outras cidades brasileiras poderia colaborar profundamente para promover o movimento olímpico para todo o país e engajar a população.

“As Olimpíadas trazem uma trégua à crise. São uma festa. Todos querem levar parte dela para casa. E nós queremos engajar essas associações para que elas cativem também os seus associados e todos possam ter a oportunidade de adquirir os produtos, comercializar esses produtos e espalhar o movimento olímpico por todo o Brasil”.

Ainda de acordo com Sylmara, a utilização da rede das Associações Comerciais brasileiras, com mais de 2300 representantes, pode contribuir no objetivo do Comitê de alcançar 40 mil pontos de vendas pelo Brasil dos produtos licenciados, além das 150 lojas oficiais.

“Precisamos preparar o varejo para essa onda de consumo que o mercado brasileiro nunca viu, nem verá mais algo parecido, provavelmente. Por isso, iniciamos um trabalho especial, visitando os maiores empresários do ramo para apresentar o nosso programa e mostrar o potencial de negócio que ele tem”, concluiu.

No dia 23 de fevereiro, a Associação Comercial do Rio de Janeiro realizou um Showroom com os produtos licenciados com o selo Rio 2016. Na ocasião, o presidente da instituição, Paulo Protasio, sugeriu que a ACRio, em parceria com o Comitê Organizador e com a Confederação das Associações Comerciais do Brasil (CACB), realize outras feiras nas Associações Comerciais presentes nas 26 capitais brasileiras.

O Comitê Rio 2016, responsável pela operação da Olimpíadas, tem orçamento de R$ 7,4 bilhões. Os recursos são exclusivamente privados e a área de licenciamento de produtos representa 6% da previsão de arrecadação, cerca de R$ 440 milhões.

As empresas que já adquiriram os direitos de licenciamento também olham os Jogos Olímpicos com bons olhos. É o caso do empreendedor Roger Yokoyama. Ele criou, em 2012, a Manuzela, bastões infláveis personalizados para torcidas.

“A intenção inicial era lançar como item oficial da Copa do Mundo de 2014. Agora, com os Jogos Olímpicos, temos certeza que será sucesso. Fizemos a Manuzela do Vinícius, mascote olímpico, do Tom, mascote paralímpico, do Ginga, que é do Time Brasil, e da Tocha Olímpica, que queremos colocar na mão de cada brasileiro para acompanharem os Jogos com uma torcida forte”, disse Yokoyama.

A ex-nadadora Fabíola Molina, que esteve nos Jogos de Sydney (2000), Pequim (2008) e Londres (2008), é proprietária de uma confecção desde 2004 e venceu a concorrência para produtos de moda praia.

“Essa é uma ótima oportunidade porque é a chance de a empresa ficar mais conhecida. Além disso, ser escolhido, diante da seriedade que são os Jogos Olímpicos, nos dá uma credibilidade muito grande e reforça nossa marca”.

A empresa, que leva o nome da ex-atleta olímpica, tem loja própria em São José dos Campos, São Paulo, possui representantes em todo o país e realiza comércio virtual. Até a olimpíada, a intenção é abrir pontos de vendas no Rio e Janeiro.

“Pretendemos sim expandir os negócios com lojas físicas para a cidade olímpica, mas ainda não temos nada definido”.

Cidades Inteligentes – Novas Tecnologias

O secretário de Ciência e Tecnologia da Prefeitura de Vitória e presidente da Rede Brasileira de Cidades Inteligentes e Humanas, André Gomyde, afirmou que cidades inteligentes são as que usam tecnologias digitais para resolver problemas urbanos, melhorar a qualidade dos serviços, reduzir custos e consumo de recursos, e se comunicar mais efetivamente com os cidadãos. “A diferença entre o conceito de cidade digital e o de cidade inteligente é justamente o uso de um sistema gerencial que faça integração das tecnologias e torne possíveis esses avanços”, disse Gomyde.

Andre Gomyde

“Investir em tecnologia e inovação é fundamental para o crescimento do país, e isso tem que começar nos municípios”, disse o presidente da Rede Brasileira de Cidades Inteligentes e Humanas, André Gomyde

Com os problemas diários que as cidades brasileiras enfrentam, como mobilidade urbana, falta de água, saneamento básico, saúde, educação, transporte público, segurança e energia, Gomyde destaca que a implementação de plataforma integrada de gestão, em parceria com as comunidades, é fundamental para a evolução dos serviços prestados pelo município. “O mundo inteiro está caminhando para a terceira onda da economia, que é a Ciência, Tecnologia, Inovação e Conhecimento. O Brasil ainda tem sua economia ainda muito fortemente baseada na primeira onda, agricultura e commodities, portanto, precisamos dar um salto urgente sob pena do mundo avançar e o Brasil ficar para trás. Investir em tecnologia e inovação é fundamental para o crescimento do país, e isso tem que começar nos municípios”.